



Não existe almoço grátis.
Essa é uma máxima aplicada aos negócios e o comércio em geral. Significa que não existe gratuidade, a empresa sempre tem uma vantagem em algum momento.
Mas essa máxima enfrenta a questão dos jogos, principalmente no mercado mobile (ainda que não seja só nele), onde milhares de títulos, feitos por dezenas de pessoas são oferecidos gratuitamente para os jogadores. A conta parece não fechar, como que todo esse custo de desenvolvimento, propaganda, servidores e manutenção pode ser pago se serviço é gratuito?
A resposta é: as Baleias Brancas pagam.
Primeiro esqueça aquela viagem da “baleia azul”, uma mistura de lenda urbana com fake news que apavorou pais que achavam que os filhos estavam vulneráveis a uma seita de internet. “Baleia Branca” é um termo gringo para definir o jogador hardcore, é o cara que vai sustentar o jogo financeiramente.
Com a dinâmica de temporização das jogadas, com fichas, gemas, e outros nomes acabam convergindo na mesma coisa, o jogador para de jogar e progredir em algum momento do dia. Para continuar jogando, ele precisa gastar recursos do jogo, ou colocar dinheiro de verdade na parada, e é aí que toda economia do game gira. - CREDITO: CAMPO GRANDE NEWS
Para valer a pena para o jogador hardcore gastar, ele precisa de uma comunidade ativa, e que seja minimamente competitiva, gerar isso com tamanha oferta das plataformas como Google Play, PSN, Xbox Live e outros é muito complexo, então a empresa foca em oferecer o jogo gratuitamente e investe em propaganda. Parte dessa propaganda consiste, inclusive, em chamar outros jogadores, é aí que o almoço grátis passa a ser pago. Aquele que joga gratuitamente precisa do recurso, e para isso convida mais e mais jogadores, uma hora essa tarrafa volta com mais peixes e também alguma “baleia branca”. - CREDITO: CAMPO GRANDE NEWS

Muita gente pode não acreditar de cara nesse organismo econômico, porque pode parecer loucura gastar com algo que é oferecido sem custo, mas dando uma boa olhada na internet não é difícil de achar pessoas que pagam centenas de reais todos os meses, isso independente do título e de sua qualidade.
Mesmo aquele game simples de celular tem milhares de pessoas jogando, e vários jogadores que investem pesado seu dinheiro para ter poder e controlar esse micro-universo.
Esses gastões acabam empurrando muita gente para consumos esporádicos, pessoas que por questão de tempo, investem algumas dezenas de reais de vez em quando para ter algum equilíbrio e continuar competitivo. Ainda que em todos esses casos os jogadores se dividem em poucos grupos, como os que jogam gratuitamente e são casuais, os gratuitos que investem muito tempo, os casuais que investem pouco, e aqueles que são o tema dessa coluna, os que jogam muito e investem muito.
E é assim que seu jogo favorito permite que você jogue sem colocar a mão na carteira, e que mesmo assim todo mundo paga as contas e fica feliz. É um ciclo que funciona, tem seus defeitos e qualidades, mas antes de tudo, funciona. - CREDITO: CAMPO GRANDE NEWS
Eu sei, pode ser um choque para quem não conhece a fundo a questão do cenário, mas se fatura mais com jogos do que na indústria da música ou cinema, e depois da pandemia esse abismo ficou ainda maior, afinal de contas, quantas pessoas não se trancaram dentro de suas casas agarradas em seus videogames conforme as recomendações mais seguras indicavam?
Mesmo assim, com toda lucratividade, a indústria vive um momento difícil e não é a primeira vez que vemos isso. Depois da quebra com a Atari no século passado, onde muita gente acreditou que videogames eram um péssimo negócio, a indústria se reinventou principalmente graças à Nintendo, que elevou o sarrafo da qualidade dos jogos e evitou aquela avalanche de lançamentos.
Mas décadas depois, os jogos precisam de muitos desenvolvedores. Se antes uma equipe de 12 pessoas conseguia criar os jogos para o Famicom em um pequeno escritório em Tóquio, hoje em dia é preciso de um trabalho em escala global envolvendo centenas de pessoas. Os jogos são muito maiores, com gameplay de muitas horas, dias de jogatina, e tudo isso sem bugs, com bons gráficos e de preferência regionalizado para cada país onde será lançado.
Então considerando tudo isso, eu posso garantir que um game que ganhou prêmios de melhor Desing Visual e Melhor Narrativa, considerado por muito tempo como o jogo mais aguardado no Playstation antes de seu lançamento, sendo um dos dez mais vendidos de 2019 (considerando jogos de TODAS as plataformas), que esse jogo, esse sucesso… consiga uma garantia de continuação, certo?
Errado.
Esqueça os zumbis lentos de Resident Evil, esqueça a falta de compromisso com a realidade Left 4 Dead, aqui os zumbis são nominalmente frenéticos, e vão correr em hordas atrás do personagem principal. O roteiro foi muito elogiado e merecidamente, envolve conspiração global, motoclubes, fanatismo religioso, o fascismo incrustado na sociedade americana, e aquela certeza que o “homem é o lobo do homem”, Hobbes chegaria à mesma conclusão jogando Days Gone, nem sempre o zumbi é o maior inimigo. - CREDITO: CAMPO GRANDE NEWS
O jogo termina com um final realmente emocionante, que deixou todos os fãs com aquela vontade maluca de jogar uma sequência, que não vai rolar. Tudo começa quando em dezembro de 2012 os diretores e roteiristas Jeff Ross e Jonh Garvin deixaram a BEND Studio, e recentemente deram entrevistas mal humoradas onde culpam até os jogadores por causa do cancelamento da continuação, mas o buraco é muito mais embaixo.
Fato é que os executivos da Sony colocaram todos os profissionais disponíveis do estúdio para trabalhar na continuação de seus títulos mais populares, estão trocando o certo pelo muito certo, tudo indica que a empresa japonesa não vai permitir o desenvolvimento de outros títulos apostando em novas propriedades intelectuais, para apostar fortemente naquilo que tem a certeza de que vai dar certo.
Quem perde com isso? Todo mundo.
Apesar dos desenvolvedores em suas entrevistas lançarem frases como “se você gosta de um jogo, compre ele com preço cheio”, o fato é que a empresa (como um todo, e não apenas a Sony) não tem alma e coração, ela quer grana para pagar os executivos e investidores, e com isso ela prejudica o mercado, que fica sem novos títulos e principalmente novas propriedades intelectuais.
Imagine só se franquias como Streets of Rage, Pokémon, Metroid, Mega Man e outras não tivessem suas continuações garantidas só porque a Nintendo ou a Sega quiseram investir em jogos do Mario e Sonic?
Com a convergência de mídias e a mudança no perfil de compra, estamos numa fase onde nunca se jogou tanto videogame, mas também nunca houve um mercado tão cheio de mais do mesmo, e o pior: sem indicativo nenhum de melhorias para os próximos anos.
Fica a pergunta: até quando vamos jogar os mesmos jogos? - CREDITO: CAMPO GRANDE NEWS
Esse exemplo acima era de Days Gone, que até outro dia era exclusivo do Playstation 4 (agora está disponível para Playstation 5 e está vindo para PC), e que foi um jogo muito aguardado por ter sido anunciado em meio a febre de zumbis na cultura pop.


















1 – Jogos tem classificação indicativa.

